terça-feira, 19 de junho de 2012

Helena tem um gato e um vizinho

Helena chegou às 4h da manhã.
Fechadura do apartamento conquistada, voleio na cadeira da sala para que não acertasse sua canela, arremesso de salto ao corredor.
Um soluço típico de um diafragma que não aguentou as investidas etílicas.
O gato a esperava, de quatro. Sedento por atenção. Roçando suas pernas com vigor.
 (E o desgosto preponderava pelas atitudes animalescas partirem de um animal, apenas).
Abre a sacada para fumar o último cigarro da noite. O desnecessário. O da finalização, mesmo estando  acabada.
O animal a acompanha. Em um primeiro momento, ele se diverte com a fumaça. No segundo, quer ser a atenção.
Em um serpentear felino, na malemolência do exibicionismo, o gato contornou as grades de aço vazadas da sacada.
Pra fora, pra dentro, pra fora, pra dentro.
E, repentinamente, para baixo.
Helena derruba o cigarro e se debruça no parapente para ver, se de fato, aquele tipo caía de pé. 
Não o viu, mas o ouviu. Uivava, crise identidade provocada pela queda, só podia. Incessantemente.
Caíra no quintal do vizinho, menos mal.
Os gritos desesperados do animal, entretanto, competiam com outros gritos de desespero. Só que aqueles que todos almejam aos sábados a noite. Os de prazer.
A sinfonia dos gatos estava instaurada. A felina do vizinho, certamente, o arranhava.  Helena não precisava daquela versão metafórica de "atirei o pau no gato". A situação era tragicômica.
O que fazer? Esperar a consumação do ato animalesco ou resgatar o animal imediatamente? Rir era a única conclusão.
Dez minutos se passaram e o barulho se agravava, por ambas as partes. Ficara com medo de acordar os outros vizinhos (ou que o tal do "alívio sexual" não ocorresse tão cedo).
Decidiu buscá-lo.
Descalça, com a maquiagem borrada, desceu as escadas até o térreo.
Um ataque histérico de riso a consumia. Tocou a campainha.
- Helena, só um minuto. Já estou indo.
O vizinho sabia que era ela. A concorrente a vizinha (que não morava ali e depois do incidente, nunca mais apareceu) sabia que era alguém que não deveria estar ali. O gato não sabia de nada, mas miava.
A porta se abriu.
O vizinho de samba canção de cetim, regata branca com manchas localizadas e um semblante de empatado segurava o gato no colo. Tentou entregá-lo a Helena.
O maldito quadrupede se prendeu ao ombro do rapaz.
Em uma cena de gruda e desgruda, Helena precisou retirar o animal daquele corpo suado, com enfáticos movimentos peristálticos. Despendeu tanto contato físico com ele quanto a felina oficial.
Depois desta árdua batalha, vencida - já que o vizinho havia perdido a outra da cama, graças a intromissão - Helena agradeceu a paciência do combatido. 


A tia preferiria que a única emoção da noite tivesse sido a do Bar, após a descoberta da dose dupla gratuita.


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